Arquivo mensal: junho 2015

Carta aberta de Marilena Chauí

São Paulo, 16 de junho de 2015.

Carta Aberta ao Cardeal Dom Odilo Pedro Scherer                                

Nos anos recentes da história brasileira, a Pontifícia Universidade Católica de São Paulo tornou-se um dos grandes exemplos do verdadeiro sentido da instituição universitária: recebeu em seu corpo docente professores das universidades públicas que haviam sido cassados por governos da ditadura civil-militar por suas idéias filosóficas, científicas, políticas e pedagógicas; afrontou o Estado abrigando a Reunião Anual da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), proibida por esses mesmos governos; abriu suas portas para grupos de pesquisa nas mais variadas áreas do saber, sem jamais questionar os princípios teóricos e práticos que os orientavam; defendeu seus estudantes quando, em luta pela democracia, foram violentamente agredidos pelas forças policiais; recebeu movimentos sociais e populares de lutas por direitos, integrando a universidade às aspirações sociais e políticas dos excluídos e espoliados; ampliou suas publicações sem nunca exigir dos autores credenciais confessionais, mas exclusivamente a qualidade acadêmica de seus trabalhos, no mesmo espírito com que instituiu intercâmbios nacionais e internacionais com universidades públicas e centros de pesquisa. Em suma, a PUC de São Paulo, fundada na tolerância intelectual, social e política, assegurou para o Brasil o espírito da universidade como instituição social livre e autônoma, ou seja, como uma ação fundada no reconhecimento público de sua legitimidade e de suas atribuições, centrada num princípio de diferenciação que lhe confere autonomia perante outras instituições sociais e estruturada por ordenamentos, regras, normas e valores de reconhecimento e legitimidade internos a ela, isto é, pela idéia do conhecimento guiado por sua própria lógica, por necessidades imanentes a ele, tanto do ponto de vista de sua invenção ou descoberta como de sua transmissão, portanto, inseparável das idéias de formação, reflexão, criação e crítica.

Se recordo as posições academicamente impecáveis, socialmente comprometidas com a justiça e politicamente corajosas que definiram a PUC de São Paulo é por que, entre perplexa e espantada, tive a notícia de uma posição tomada pela direção da universidade que nega sua história, aqui brevemente relatada, De fato, como interpretar a proibição da instalação da Cátedra Michel Foucault senão como um gesto de censura e intolerância? E isto com relação a um pensador que lutou contra elas com todas as suas forças? Não deu ele provas disso não apenas em sua obra, mas também em suas viagens ao Brasil durante a ditadura para apoiar todos os movimentos, universitários ou não, de resistência ao terror de Estado?

Alegou-se divergência de pensamento. Ora, desde quando filosofia e ciência se definem pela unanimidade e pelo consenso? Entre os grandes pensadores do Século XX, Michel Foucault pautou-se, em sua vida e em seu pensamento, pela ousadia de conceber o novo, polemizando contra a inércia e a auto-satisfação das idéias recebidas e repetidas, divergindo dos saberes instituídos e combatendo normas, regras e valores por eles sustentadas. Universidades e centros de pesquisa do mundo inteiro proibiram sua atividade como professor, seus trabalhos de pesquisa e suas publicações por que divergentes, polêmicas, inovadoras? Foi ele submetido ao vigiar e punir? Pelo contrário, foi e é reconhecido em toda parte como um dos maiores pensadores do Século XX, cuja herança percorrerá a filosofia, as ciências humanas, a ética e a política durante o Século XXI por que sua obra, como toda obra que é grande, ao pensar, dá a pensar, ao dizer, dá a dizer, fazendo-nos pensar e dizer o quem sem ela não poderíamos pensar nem dizer. Divergir de Foucault? Ninguém mais do ele aplaudiria a divergência e a consideraria bem vinda, momento em que um pensamento e uma ação novos, no contato recíproco e benfazejo com seus opostos, podem colher os frutos de um combate generoso e criador.

E visto que falo em divergência e generosidade, não é descabido que eu lembre a Vossa Reverendíssima o dito daquele que a Igreja reconhece como um divergente maior, Voltaire: “discordo de tudo quanto dizeis, mas defenderei até à morte vosso direito de dize-lo”.

Eppur si muove…

Atenciosamente,

Marilena Chaui

Professora do Departamento de Filosofia

Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas

Universidade de São Paulo

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POR MAURICE FLORENCE!

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O Grupo de Pesquisa Michel Foucault da PUC/SP convida  para a mesa: 

POR MAURICE FLORENCE!

Convidados:
Prof. Paulo Eduardo Arantes (USP)
Prof. Pedro Paulo Gomes Pereira (UNIFESP)
Mediação:
Prof.a Salma Tannus Muchail (PUC/SP)

18/06/2015 – auditório 100a, 19h30
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Galileu está de volta

Marcelo Coelho

Texto publicado no Jornal folha de São Paulo, em 17/06/15

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Brecht, de todo modo, está no teatro da PUC. Por que impedir a cátedra Foucault na mesma universidade?

Com sua magrelice amalucada, Denise Fraga é sempre garantia de sucesso para as peças que protagoniza. Mas há outros motivos, sem dúvida, para que “Galileu Galilei”, de Bertolt Brecht (1898-1956) esteja lotando o Tuca (Teatro da Universidade Católica de São Paulo).

É que faz bem ver no palco, de vez em quando, as coisas serem tratadas pelo nome que realmente têm. Obscurantismo é obscurantismo, razão é razão, fatos são fatos, e medo dos fatos é medo dos fatos.

Assim, numa das mais fortes e interessantes cenas da peça, o grande astrônomo tenta convencer as autoridades de Florença a olhar pelo telescópio. Quer informá-las de uma pequena e fundamental descoberta: havia satélites girando em torno de Júpiter.

O planeta não estava, portanto, incrustado numa esfera de cristal pairando acima de nossas cabeças. Se fosse assim, os satélites teriam de perfurar o cristal para dar uma volta completa em seu redor.

Os sábios se recusam a olhar pelo telescópio. Melhor não saber dos fatos do que destruir uma concepção tradicional do mundo. Os planetas girando soltos no éter? A Terra, um grão periférico no cosmos? Impossível.

Em outra cena, um amigo do astrônomo resolve submeter-se às pressões da igreja e desistir da ciência. Conta para Galileu como vivem seus pais agricultores. A mãe, depois de dar à luz não se sabe quantos filhos, hoje está murcha e acabada. O pai, que nada sabe das estrelas, só das azeitonas que cultiva, tem as costas curvas e as mãos deformadas.

Iremos tirar dessa gente a esperança e o consolo da religião? Não é melhor que vivam na ignorância do que confrontem-se com uma verdade que lhes tira o sentido de tudo?

Galileu responde com astúcia. Acabou de descobrir o mecanismo que rege o movimento das marés. Você tem interesse no assunto? O amigo se precipita sobre as fórmulas ainda frescas de tinta. O fruto do conhecimento, brinca o protagonista da peça, continua a ser provado com muita gula…

E os velhos dogmas que consolavam o sofrimento dos agricultores? A resposta de Brecht é radical. Não deve haver consolo nenhum.

O alívio oferecido pela religião faz parte da máquina que produz o sofrimento. Querer a verdade científica é também lutar contra o que há de falso (de irracional, de injustificável, de ilegítimo) na opressão de um homem sobre o outro.

A arte de Brecht está, naturalmente, em evitar que essas ideias se degenerem em panfleto. Os dois lados do debate são defendidos com inteligência; Galileu, como se sabe, é falível, amedronta-se diante da Inquisição e é bem injusto com a própria filha.

Surgem aí alguns problemas na montagem do Tuca. Talvez exista algo de revolucionário, de “copernicano”, quando uma mulher fisicamente frágil assume o papel de um cientista gordo, jupiteriano, colossal.

Perde-se, entretanto, uma ambiguidade importante –a de ver o grande cientista encolher-se diante da Inquisição. Diminui-se também, a meu ver, o incômodo das relações entre Galileu e sua filha; viram quase coleguinhas.

Aposta-se, por fim, mais nas certezas do público do que na desestabilização intelectual. Como Brecht é marxista, toca-se a “Internacional” e os artistas aparecem com roupa de russos. Como “somos de esquerda”, um panelaço antipetista é posto em cena, com madames contestando Galileu.

Não consigo me convencer de que a verdade científica esteja do lado de Aldo Rebelo ou Rui Falcão. Imagino que nem mesmo para os atores da peça faz sentido colocar Dilma, Lula e Galileu no mesmo time.

Brecht, de todo modo, está no teatro da PUC. Por que impedir uma cátedra Foucault na mesma universidade? O assunto renderia páginas e páginas que não me sinto motivado a escrever; eles que se entendam lá dentro.

Mas tudo me parece um problema de relações públicas. Que imagem a PUC quer transmitir? Para o público externo e leigo, a proibição será vista como obscurantista e inquisitorial. Para o público interno, estará sendo preservada a “identidade” religiosa da instituição.

Trata-se de um preço alto demais para responder a problemas de identidade. Depois de Galileu, o catolicismo sobrevive reduzindo sua carga de mitologia e cultivando o essencial dos Evangelhos. Claro, os livros de Foucault não estão proibidos na PUC. Mas será que uma cátedra Foucault representa ameaça maior que uma cátedra Galileu?

coelhofsp@uol.com.br

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Cátedra Foucault: resposta à coluna de Luiz Felipe Pondé

Resposta à coluna de Luiz Felipe Pondé, Folha de São Paulo, de 15 de junho de 2015.

Jeanne Marie Gagnebin 

A coluna de L. F. Pondé cria oposições falaciosas e traz falsas informações. Não leciono a filosofia de Foucault, mas mais os pensadores de Frankfurt, ligados, sim ao marxismo, mas também a Freud, à estética e à grande tradição do pessimismo crítico. Portanto, me sinto livre para não dividir o mundo do pensamento em metades estanques. Devemos lembrar que a Cátedra se chama “Foucault e a filosofia do presente”. Filosofia do presente alude à função crítica da filosofia, como tenta ser desde Sócrates: inclui pensadores de várias origens e matizes. Não foram alguns professores esquerdistas que propuseram a cátedra, mas sim colegas da América Latina e da França, com o apoio do Consulado francês, impressionados pela qualidade dos trabalhos apresentados em 2011 no VII colóquio Foucault. A Cátedra visa o intercâmbio (geralmente no quadro de fundações como a Fapesp) e não acarreta gasto para a PUC. Enfim, foi aprovada por TODAS as instâncias democráticas da Universidade. Não se trata de impor um autor, mas sim de reconhecer a qualidade do trabalho efeituado por vários colegas e a presença da PUC no debate filosófico atual. É decepcionante que esses aspectos não foram nem mencionados e que o pensamento de Foucault, profundamente questionador e ético, não tenha recebido uma atenção mais fina por parte das autoridades eclesiásticas e pelo colunista desta Folha.

Jeanne Marie Gagnebin é professora Titular do Departamento de Filosofia da PUC-SP 

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Obscurantismo, sim

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Vladimir Safatle 

Coluna publicada no jornal Folha de São Paulo, em 09 de junho de 2015. 

Na semana passada, o sr. Francisco Borba Ribeiro publicou (Folha, 2/6) uma defesa da decisão tomada pela PUC-SP, de rejeitar a criação de uma Cátedra Michel Foucault. Não, disse o sr. Ribeiro, não se trata de nenhuma reação obscurantista contra um filósofo que não “tem afinidade com o pensamento católico”. Trata-se apenas de uma reafirmação aparentemente legítima dos princípios de uma instituição que, “num mundo repleto de identidades líquidas, pensamentos débeis e opiniões passageiras”, acredita ter encontrado a verdade há séculos.

Os professores poderão continuar a dar seus cursos sobre Foucault, diz o representante da PUC, mas não esperem que a referida instituição permita que eles desenvolvam cátedras responsáveis por federar pesquisas envolvendo outras instituições, conservar materiais que possam alimentar o interesse dos alunos e receber professores convidados. Segundo ele, uma cátedra é um “ente honorífico”, e não há questão de honorar alguém como Foucault. Mas a colocação é simplesmente falsa. Qualquer universitário no mundo inteiro sabe que uma cátedra é um instrumento academicamente importante de fortalecimento de pesquisa, visibilidade e intercâmbio.

Tudo isto é uma afronta inaceitável ao ensino de filosofia no Brasil. Não cabe à igreja e às suas pretensas verdades seculares limitar a possibilidade do desenvolvimento de saberes na área de filosofia. No entanto, é isto o que está a ocorrer. Faz parte da espinha dorsal de um estado laico defender suas universidades como espaços nos quais diferentes concepções de verdade podem se confrontar e serem igualmente respeitadas. Uma universidade não conhece “verdades encontradas há séculos”, mas está disposta a permitir o questionamento de toda e qualquer verdade que queira se colocar enquanto tal.

Se a PUC quer agir como um seminário católico, então ela deve abrir mão de seu credenciamento como universidade e se contentar em ser um seminário católico. Uma universidade que não aceitaria, por exemplo, uma Cátedra Voltaire ou uma Cátedra Spinoza por eles não terem afinidades como o pensamento do dono não pode ser chamada de universidade. Nossos departamentos de filosofia ensinam São Tomás de Aquino e o ateu Diderot, Marx e o liberal John Locke, Santo Agostinho, Nietzsche, o protestante Kierkegaard e qualquer um deles poderia receber uma cátedra em qualquer universidade pública brasileira. Não há razão alguma para aceitarmos ser diferente na PUC.

As áreas de filosofia e teologia são ligadas nas agências federais de fomento. Por esta razão, é de se esperar que os responsáveis pela área de teologia se manifestem contra tal ataque ao ensino de filosofia. Do contrário, não sei por que nos colocaram juntos.

Vladimir Safatle é professor Livre Docente do Departamento de filosofia da Universidade de São Paulo

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A cruz ou a cátedra?

jonnefer barbosa

Jonnefer Barbosa

O ato conjunto n.2/2014, redigido pela Reitora da PUC-SP, Prof.ª Anna Maria Marques Cintra, e pelos Secretários Executivos da Fundação São Paulo dispõe sobre “a instituição de diretrizes para a criação e funcionamento de Cátedras na PUC-SP”. Neste mesmo ato há uma contradição entre o art. 2º, prevendo que as cátedras na PUC-SP terão por finalidade “promover estudos e pesquisas sobre a obra de um ou mais pensadores ou sobre temas específicos”, e o art. 3º, inc. IV, onde lemos a exigência de que a criação de uma cátedra passe pela aprovação do Conselho Superior da Fundação São Paulo.
Ora, a cátedra é uma instituição acadêmica, com ênfase na atividade de pesquisa. O inciso em questão prevê que um conselho externo aos órgãos da Universidade, formado em sua maioria por membros da Igreja Católica, decida sobre questões ligadas à pesquisa universitária. Contra o argumento do prof. Francisco Borba Ribeiro Neto, exposto na página Tendências e Debates da “Folha de São Paulo” em 2/6/15, as cátedras não são apenas entidades honoríficas.
Reduzir todo este debate à questão de se homenagear ou não um autor, argumento central também do parecer apresentado ao Conselho Superior da Fundação São Paulo que defendeu o veto à cátedra, só demonstra a forma leviana como uma questão acadêmica fundamental é tratada pelo clero paulistano.
Criou-se uma situação constrangedora em que a própria universidade cede sua autonomia a uma instância religiosa. Obviamente, esta situação é muito cômoda para um cardeal que já apresentou sinais de buscar uma maior intervenção e presença na vida universitária da PUC-SP, vide a nomeação da terceira colocada nas últimas eleições como reitora – personagem, aliás, que tem demonstrado um silêncio condescendente em face de tamanho atentado à universidade que representa.
É uma situação também conveniente, para um movimento católico conservador (neste sentido mais próximo ao Grande Inquisidor de Dostoievsky que aos exemplos de Cristo, um perseguido), acuado pela ascensão de um papa progressista no Vaticano, ganhar terreno dentro da PUC-SP sem muito esforço: os próprios jornais paulistanos têm divulgado, de forma errônea, que o órgão máximo da PUC-SP seria o Conselho da FUNDASP.
O argumento de que o pensamento de Foucault contraria os princípios católicos é pueril. E em nenhum momento o pensador francês demonstrou ter sido “agressivo contra a Igreja”, ao contrário do que defende o prof. Francisco Borba Ribeiro Neto, no artigo já citado. A biografia e a obra de Michel Foucault desmentem estas conclusões. De todo modo, como seriam frágeis estes princípios milenares se precisassem se salvaguardar contra as pesquisas de um professor do Collège de France já falecido, um professor que em suas pesquisas privilegiou o olhar daqueles excluídos hoje tão citados e defendidos no papado de Francisco, os loucos, os prisioneiros, os hospitalizados, os refugiados, a vida dos homens que não deixam rastros nos arquivos monumentais da história. A genealogia foucaultiana não deixou de fazer esta “historiografia das ausências”.
O problema é que tal argumento, do conflito com uma religião, não deve ser colocado como óbice para qualquer tipo de atividade acadêmica, mesmo se as cátedras fossem entidades simplesmente honoríficas, ornamentais, como deseja o prof. Ribeiro Neto. O caráter totalizante e missionário de uma religião não combina com a fragilidade do pluralismo acadêmico, por isso o caráter laico das universidades ser garantido pelo Estado, como um princípio constitucional. Um princípio aplicado mesmo às universidades confessionais, pois antes de serem católicas, metodistas, batistas ou adventistas (etc.) são sobretudo universidades, do contrário veríamos médicos formados na ideologia criacionista, professores de filosofia que só saberiam lecionar o tomismo, ou engenheiros civis confiantes ou resignados com a providência divina.
E mesmo se a PUC-SP pretendesse homenagear alguém em virtude sua obra ou ação importante, no exemplo de um título “honoris causa”, instituto eminentemente honorífico, seria vexatório se a questão religiosa entrasse neste debate, como não conceder o título a determinado professor, mesmo se ele tenha desenvolvido técnicas importantes na luta contra o câncer, porque que é ateu, anticlerical ou mesmo crítico à igreja. Por mais que os espaços universitários possam lembrar paróquias, ou que neles as igrejinhas e seus líderes messiânicos a todo instante colidam, não estamos em um espaço eclesial.
Em respeito à própria especificidade do campo religioso. Assim como não podemos ensinar um bispo a rezar missa, seguindo o famoso ditado popular, um bispo não pode, até por uma questão de competência, dizer o que deve ser feito em uma universidade. A interpretação do significado do dispositivo “cátedra”, no veto do Conselho da FUNDASP, passa por este desentendimento incontornável.
Se o ato de doação dos cursos de Foucault prevê a criação de uma cátedra, se esta cátedra abrirá a possibilidade de bolsas aos estudantes da PUC-SP e estimulará a pesquisa em Filosofia no Brasil e na América Latina, será lamentável se este projeto for inviabilizado pela alusão inquisitorial e tacanha de que “Foucault conflita com os princípios católicos”. O próprio bispo que redigiu o parecer contra a cátedra poderia ter se beneficiado, na pesquisa para este documento, dos arquivos que a biblioteca da Universidade possui com exclusividade, e mesmo a questão “o pensamento de Foucault está de acordo com os princípios cristãos?” poderia ser melhor desenvolvida com a utilização de material da cátedra, o que só mostra que a pesquisa livre só é perigosa para quem está inseguro de sua própria posição.
Mas, com o veto à cátedra, Odilio Scherer atinge ganhos políticos e ideológicos. Divulgação massiva e gratuita de que a PUC-SP passou a ter direção inspirada pela ortodoxia religiosa não contraria os interesses do Grão-Chanceler, ao contrário, minimiza o trabalho futuro de quem efetivamente quer uma universidade puramente confessional e apequenada no plano acadêmico.
Não podemos, como acadêmicos, professores, pesquisadores e estudantes da PUC-SP, em respeito à história desta universidade, dar a este Conselho de Bispos o poder que ele não tem e nunca teve. Em virtude do objeto e da finalidade, entendemos a legislação sobre as cátedras seja uma atribuição exclusiva do Conselho Universitário.
Urge que o ato conjunto n. 2/2014 seja discutido no âmbito do CONSUN e revogado o mais rápido possível, e que um ato especial do CONSUN assegure a criação e permanência da “cátedra Foucault e a filosofia do presente” na PUC-SP.

Jonnefer Barbosa, doutor em Filosofia, é professor de Filosofia do Departamento de Filosofia da PUC-SP

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Debate: As manifestações no Brasil do século XXI e as perspectivas para o futuro

(Eduardo Cota/Acervo CSBH)

(Eduardo Cota/Acervo CSBH)

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Debate: As manifestações no Brasil do século XXI e as perspectivas para o futuro

Data: 11/06/2015, 19h às 22h

Local: Pátio da Cruz, Campus Monte Alegre, PUC-SP. Em caso de chuva as atividades serão transferidas para o auditório 134C. 

Participantes: Waldemar Rossi e Ruy Braga,

com a mediação de Cassiano Terra Rodrigues

O debate traz duas importantes personalidades do debate político nacional para aprofundar a reflexão sobre as manifestações públicas que, desde 2013, ocorrem no Brasil. Coincidindo com os 50 anos do golpe militar de 1964, chamado “A Revolução”, por seus defensores, o debate tem como objetivo problematizar os recentes acontecimentos da vida política nacional, com a ascensão das reivindicações populares paralelamente à guinada à direita da política institucional, bem como, por meio da reflexão histórica, tentar refletir sobre as perspectivas que podem se abrir para o futuro. 

Waldemar Rossi: Coordenador da Pastoral Operária da Arquidiocese de São Paulo, membro da Pastoral Fé e Compromisso Social da Região Episcopal Belém (SP), metalúrgico aposentado e militante histórico da classe operária brasileira. Em sua trajetória, trabalhou em mais de uma dezena de fábricas, desde a participação na JOC (Juventude Operária Católica), nos anos de 1960, participando ativamente na organização dos trabalhadores para a resistência e superação da ditadura militar, pelo movimento sindical, até os dias de hoje, com a atuação também junto à Comissão de Justiça e Paz. Em 1980, representou os trabalhadores brasileiros na saudação ao Papa João Paulo II, no Estádio do Morumbi (SP).

Ruy Braga: Professor associado do Departamento de Sociologia da USP. Coordenador do CENEDIC (Centro de Estudos dos Direitos da Cidadania), autor de diversos livros e artigos de sociologia. Foi militante estudantil na UNICAMP durante a década de 1990, quando, como membro da UNE, participou do Fora Collor.  Em co-autoria com Michael Burawoy, professor da Universidade da California, Berkeley, escreveu um livro em defesa de uma sociologia pública, a qual busca sair das fronteiras da academia e, conforme a influência de A. Gramsci, participar mais organicamente da vida social. 

Cassiano Terra Rodrigues: Professor Doutor do Departamento de Filosofia da PUCSP (mediador).

 

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