Cátedra “Michel Foucault e a filosofia do presente”

Manifestação do Departamento de Filosofia da PUC-SP

Os professores do Departamento de Filosofia da PUC-SP vêm, por meio deste, expressar o mais profundo lamento mediante a decisão do Conselho Superior da Fundação São Paulo de não apenas recusar a proposta de criação da Cátedra “Michel Foucault e a filosofia do presente” na Universidade, mas também de se negar a julgar o mérito do recurso apresentado pelos proponentes da Cátedra.

Em um contexto de crise sem precedentes da Universidade, lamento é a palavra que mais nos aproxima da sensação de uma névoa obscurantista que se esconde nas entrelinhas dessa decisão. Lamento é o sentimento que resta quando somos silenciados e, principalmente, quando o silêncio se estabelece pela força da autoridade mesmo quando nos empenhamos na construção de argumentos que possibilitem o diálogo para edificar o respeito à diversidade de pensamento.

Neste contexto, é preciso admitir a importância das pesquisas de Michel Foucault: sem apelar para as petições de princípio ou mesmo para comparações hiperbólicas, Foucault resgatou o discurso silenciado dos loucos, dos prisioneiros, enfim, de todos os alijados do discurso da pretensa racionalidade cientificista que traçou os contornos da modernidade. Tal resgate só foi possível graças um trabalho de análise e pesquisa rigoroso e minucioso. A minúcia e o rigor do trabalho de Foucault por si só já justificariam a criação de uma Cátedra Universitária com seu nome, independente dos temas e problemas abordados em sua pesquisa histórico-filosófica.

Por esta e outras razões o departamento de filosofia aprovou por unanimidade a criação da Cátedra ”Michel Foucault e a Filosofia do Presente”. Não bastasse o reconhecimento da qualificação institucional e das relações internacionais e acadêmicas que uma Cátedra proporciona, o departamento de filosofia entende que a criação desta cátedra não se limita a privilegiar um autor ou uma obra específica mas visa, também, toda a “filosofia do presente”.

Destacamos, dentre outros, alguns motivos que levaram o departamento de filosofia a aprovar a Cátedra ”Michel Foucault e a Filosofia do Presente”:
1) O reconhecimento internacional da importância do trabalho de pesquisa efetuado por alguns professores do Departamento de Filosofia da PUC-SP e alunos do curso de graduação e pós-graduação da PUC-SP (Grupo de pesquisa Foucault PUC/CNPQ). Reconhecimento este que honrou a Universidade com um convite que nasceu da iniciativa do Consulado Geral da França em São Paulo, em comum acordo com professores representantes das renomadas Instituições: École Normale Supérieure de Paris, Université de Paris VIII, Collège Internacional de Philosophie (França), Universidade de Lisboa (Portugal), Universidad Complutense de Madrid (Espanha), Universidad San Martin (Argentina), Universidad de Caracas (Venezuela),Universidad de Valparaíso (Chile).

2) A possibilidade de incitar investigações sistemáticas e críticas acerca de problemas que merecem estudo na contemporaneidade, assim como um questionamento sobre a própria noção de “contemporâneo”.

3) A criação de parcerias e trocas entre Instituições de diversos países, criando possibilidades efetivas para o prosseguimento de estudos dos alunos de filosofia e de outros cursos da PUC-SP, bem como, de toda comunidade acadêmica no Brasil.

Poderíamos elencar diversas outras razões para viabilização da criação da Cátedra “Michel Foucault e a filosofia do presente”. Todas claras e evidentes. Tal evidência e clareza levaram a proposta a ser aprovada com louvor em todas as instâncias deliberativas da Universidade, relevada a diversidade de áreas de pesquisas e de pesquisadores das mais diferentes filiações contempladas em nossa Universidade.

Por fim, não há dúvida que a obra de Foucault gerou e, ainda gera, inúmeras interpretações, daí sua riqueza e complexidade. A decisão do Conselho Superior da Fundação São Paulo, ao impedir a criação da Cátedra “Michel Foucault e a filosofia do presente” na Universidade, não consiste na defesa dos princípios católicos – o que este Conselho Superior pode e deve fazer -, mas no exercício de uma censura que lembra tempos infelizes. Impedir a abertura de um espaço destinado ao estudo sério e crítico de um autor e de uma obra que não pode ser negligenciada na história do pensamento contemporâneo, seria negar o “outro” como configuração do “mesmo”, problema presente na obra de Michel Foucault e que deve ser considerado pelo Conselho Superior da Fundação São Paulo.

São Paulo, 03 de maio de 2015.

Departamento de Filosofia da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo

Para firmar apoio a este documento: 

https://secure.avaaz.org/po/petition/Conselho_Superior_da_Fundacao_Sao_Paulo_criacao_da_Catedra_Michel_Foucault_e_a_filosofia_do_presente_na_PUCSP/?nuHvrjb

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16 pensamentos sobre “Cátedra “Michel Foucault e a filosofia do presente”

  1. Sandra madureira disse:

    Meu apoio irrestrito

  2. Lurdinha Trassi (Maria de Lourdes Trassi Teixeira) disse:

    Essa recusa em nada honra a história dessa universidade que já fez parte da resistencia à ausencia de liberdade, em tempos recentes.

  3. inglesveracruz disse:

    Meu apoio total!

  4. BET ALVES disse:

    concordo, conhecimento dá abertura nos debates, isso é bom para descobertas da ciência, paz e bem!
    Beth

  5. mauro p. meiches disse:

    não à censura. apoio à criação da cátedra.

  6. Meu total apoio à cátedra, enquanto professor na Faculdade de Filosofia, Letras e Arte da PUC-SP e enquanto presidente da Apropuc. Não podemos nos calar diante de tal cerceamento ideológico.

  7. Republicou isso em O(s) Fim(ns) da Históriae comentado:
    Apoio! A PUC perdeu uma grande chance de um intercâmbio de ideias e de pesquisas.

  8. Paulo Valle disse:

    Uma atitude simplesmente lamentável! Apoiado!

  9. Maria Lúcia Martinelli disse:

    Lamento é a palavra que realmente cabe para expressar o sentimento diante de um ato tão deplorável !
    Maria Lúcia Martinelli – Pós Serviço Social

  10. Maria Marta Azzolini disse:

    Lamentável é o mínimo a se dizer!

  11. Triste! A indignação é muito grande!

  12. Marilene Corrêa da Silva Freitas disse:

    Meu apoio irrestrito. Atitude lamentável, mesmo.
    Marilene Freitas, PPGSCA – UFAM

  13. raimundo paixão disse:

    Em pleno século XXI temos que suportar a intolerância da igreja ao livre pensar. Francamente.

  14. Todo espaço que ajude a refletir, pensar questionar é sempre bem-vindo; atitude simplesmente lamentável!

  15. João Luiz Pereira Tavares disse:

    UM MOMENTO, APENAS UM!, SUI GENERIS. EIS:

    Em 2016 houve fato fabuloso sim, apesar de Vanessa Grazziotin falar que não, dessa forma assim:

    “O ano de 2016 é, sem dúvida, daqueles que dificilmente será esquecido. Ficará marcado na história pelos acontecimentos negativos ocorridos no Brasil e no mundo. Esse é o sentimento das pessoas”, diz Grazziotin.

    Mas, por outro lado, nem que seja apenas 1 fato positivo houve sim! É claro! Mesmo que seja, somente e só, um ato notável, de êxito. Extraordinário. Onde a sociedade se mostrou. Divino. Que ficará na história para sempre, para o início de um horizonte progressista do Brasil, na vida cultural, na artística, na esfera política, e na econômica. 
    Que jamais será esquecido tal nascer dos anos a partir de  2016, apontando para frente. Ano em orientação à alta-cultura. Acontecimento esse verdadeiramente um marco histórico prodigioso. Tal ação acorrida em 2016 ocasionou o triunfo sobre a incompetência. Incrementando sim o Brasil em direção a modernidade, a reformas e mudanças positivas e progressistas. Enfim: admirável. 

    Qual foi, afinal, essa ação sui-generis?

    Tal fato luminoso foi o:

    — «Tchau querida!»

    Eis aí um momento progressista, no ano de 2016. Sem PeTê.

    • BET ALVES disse:

      olá, mas e agora? poderemos continuar lutando, já mudou a reitoria, então vamos lá, exigir, temos outras amarras para quebrar também no governo que quer tirar a Sociologia e Filosofia, as batalhas continuam… obrigado, PAZ E BEM!

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