Arquivo mensal: maio 2015

Textos em defesa da Cátedra Foucault

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Obscurantismo 

Vladimir Safatle, professor de Filosofia, artigo publicado no jornal “Folha de São Paulo”, em 12 de maio de 2015.

Pode parecer um mero problema ligado à vida acadêmica nacional, mas infelizmente é muito mais que isto. Trata-se da expressão perfeita de um sintoma de obscurantismo que parece, aos poucos, tomar conta de setores importantes da sociedade brasileira.

Há alguns anos, alguns dos mais destacados professores de filosofia da PUC de São Paulo, associados a várias universidades francesas, ibéricas e latino-americanas, juntamente com o Consulado Geral da França em São Paulo, criaram a cátedra Michel Foucault. Seu objetivo era fornecer a estrutura institucional para o estudo e pesquisa de um dos filósofos mais importantes do século 20, com grande influência no desenvolvimento do pensamento brasileiro. Graças a tal iniciativa, o Brasil recebeu, por exemplo, um precioso acervo das gravações de suas aulas no Collège de France.

No entanto, há algumas semanas um dos conselhos dirigentes da PUC-SP vetou a criação da referida cátedra. Motivo: o pensamento de Foucault não coadunaria com os valores defendidos por uma instituição católica de ensino. Por ironia do destino, e isto diz muito sobre o Brasil atual, a mesma PUC-SP foi, nos anos setenta e oitenta, uma das instituições responsáveis pela introdução do pensamento de Foucault e outros filósofos franceses entre nós.

Alguns podem ver nisto certa coerência, como seria coerente, seguindo este mesmo raciocínio, impedir os alunos da PUC terem aula sobre Nietzsche (já que este anunciou a morte de Deus), Freud (que chamou a religião de “o futuro de uma ilusão”), Voltaire (o anticlerical por excelência) ou quiçá mesmo sobre Spinoza (visto pela teologia oficial como a expressão cabal da heresia panteísta).

Mas, se assim for, por que chamar de “universidade” o que, cada vez mais, se aproxima de um seminário católico ou de uma maquinaria de proselitismo religioso? “Universidade” significa espaço livre de saber, no interior do qual podemos oferecer um formação na qual visões em conflito são apresentadas. Por isto, o conteúdo de ensino de uma universidade deve estar livre dos limites impostos pelos interesses de igreja, mercado, Estado ou de qualquer outro poder político.

Se a PUC quer seguir tal caminho obscurantista, então ela deve assumir as consequências de sua escolha e abrir mão de sua creditação como universidade. Pois tal creditação é fornecida pelo Estado brasileiro a partir do respeito a valores elementares de abertura e pluralidade. Várias outras universidades católicas no mundo achariam aterrador uma atitude como a recusa de uma cátedra de filosofia por motivos teológicos. Se esta for a regra daqui para a frente, o Estado brasileiro deve defender o conceito de universidade fruto do Esclarecimento.

Confira mais:

Saber e Poder – Joel Birman 

O Estado de São Paulo, 23 de maio de 2015 

http://alias.estadao.com.br/noticias/geral,saber-e-poder,1692762 

Michel Foucault e as fogueiras – Jeanne Marie Gagnebin

Revista Carta Capital  25 de maio de 2015

http://www.unicamp.br/unicamp/clipping/2015/05/25/michel-foucault-e-fogueiras 

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Filosofia do e no presente

Por Jeanne Marie Gagnebin

Como o Estado de São Paulo notificou na sua edição de 30 de abril passado, o Conselho Superior da Fundação São Paulo (órgão máximo da Fundação São Paulo, composto pelo Cardeal Odilo Scherer, pela Reitora da PUC/SP, Professora Anna Maria Marques Cintra e por sete bispos da região de São Paulo) não só recusou a criação, na universidade, de uma Cátedra “Michel Foucault e a filosofia do presente” como também se negou a julgar o mérito do recurso apresentado pelos proponentes da Cátedra. O estupor, a consternação e, finalmente, a indignação suscitados por tal recusa motivaram vários protestos por parte do Consun (conselho universitário, instância acadêmica maior da PUC/SP), reunido em 29 de abril e por parte do Departamento de Filosofia e do Programa de Estudos pós-graduados em Filosofia da PUC/SP, entre outros; motivam também a redação desse pequeno artigo. Ademais circulam na internet vários abaixo-assinados, de alcance nacional e internacional, pedindo a reconsideração dessas decisões.
Cabe aqui uma breve reconstituição do processo que levou ao pedido de criação da Cátedra. Como é sabido, a pesquisa sobre Foucault é muito viva no Brasil, aglutinando pesquisadores em filosofia, psicologia e história, para somente aludir às principais disciplinas que trabalham sobre e com o pensamento do filósofo francês. Esse interesse se tornou tangível no VII Colóquio Internacional Michel Foucault, organizado pelo “Grupo de Pesquisa Michel Foucault”, criado em 2008, inscrito no CNPq e dirigido por dois professores do Departamento de Filosofia da PUC/SP, pesquisadores e tradutores da obra de Foucault. O Colóquio aconteceu em outubro de 2011 no Tucarena e reuniu colegas do Brasil e das seguintes instituições estrangeiras: École Normale Supérieure de Paris, Université de Bordeaux III, Université de Paris VIII, Collège International de Philosophie (França); Universidade de Lisboa (Portugal), Universidade Complutense de Madrid (Espanha), Universidad San Martin (Argentina), Universidad de Caracas (Venezuela), Universidad de Valparaiso (Chile). A qualidade dos trabalhos e o número de interessados (cerca de 400 inscritos) acarretaram uma iniciativa conjunta do Consulado Geral da França em São Paulo e dos representantes das universidades estrangeiras citadas, iniciativa que proponha a criação da Cátedra “Michel Foucault e a filosofia do presente”, com o objetivo de consolidar a PUC/SP como centro de referência para o estudo da obra do autor e dos seus desdobramentos, propiciando intercâmbios entre pesquisadores da América Latina, entre eles e com colegas franceses. Deve ser ressaltado aqui o apoio enfático do Consulado francês em São Paulo, sem o qual essa iniciativa não poderia vir à luz.
Os responsáveis pela proposta da Cátedra internamente à PUC-SP são os professores Salma Tannus Muchail e Márcio Alves da Fonseca, coordenadores do Grupo de Pesquisa Michel Foucault. O Projeto de criação da Cátedra tramitou pelas instâncias universitárias (Departamento, Faculdade, Conselho de Ensino, Pesquisa e Extensão, Conselho Universitário), recebendo em todas elas, aprovações unânimes, muitas vezes entusiásticas, ressaltando a seriedade e qualidade da proposta que somente podia honrar o trabalho acadêmico efeituado na PUC/SP.
Sinal desta confiança foi a doação, pela “Bibliothèque Générale du Collège de France”, dos áudios, em seu idioma original francês, de todos os Cursos ministrados por M. Foucault naquela prestigiosa instituição. Esta doação foi intermediada pelo Consulado Geral da França em São Paulo e faz da PUC-SP, além do próprio Collège de France (em Paris) e do Institut Mémoires de l’Édition Contemporaine (em Caen, na Normandie), a única instituição no mundo, além das francesas, a possuir este acervo.
Devemos acrescentar que a Cátedra não se propõe somente um estudo da obra de Michel Foucault, mas abre o campo de investigação para aquilo que pode ser chamado de “filosofia do presente”, isto é, uma reflexão filosófica crítica sobre a noção de presente e de contemporâneo, sobre suas raízes na tradição filosófica e histórica, sobre as escolhas políticas e éticas que tais reflexões suscitam; esse campo de investigação foi próprio de Michel Foucault (e de outros pensadores do século XX) que passou de um questionamento primeiro sobre o estatuto do homem, definido de maneira clássica como sujeito do conhecimento, a uma interrogação muito mais radical sobre o homem enquanto sujeito não só epistemológico, mas antes de tudo ético. Foucault retoma para isso uma tradição antiga da filosofia grega como askesis, exercício de cuidado e de transformação de si mesmo e da relação aos outros. Essa temática eminentemente ética e política o leva, em seu últimos escritos, a retomar o conceito de parresia, presente tanto nos Evangelhos quanto em Sêneca, que podemos traduzir como “coragem da verdade”.
Essas considerações tornam incompreensíveis as decisões do Conselho Superior da Fundação. Deveriam ser elas lidas como fruto do desconhecimento do pensamento de Michel Foucault? Conversando com um amigo professor de teologia em Paris, ele me confessou que, no fim da leitura de Courage de la vérité (último curso de Foucault publicado na França), ele não só admirou a erudição teológica do autor, mas fez a seguinte “blague”: “Foucault parece quase ter se tornado cristão!”
Ou, muito pior, deveria ser tomada essa recusa como um gesto de censura não só contra Foucault, mas também contra a liberdade de reflexão filosófica? Uma liberdade que nos parece imprescindível para o ensino vivo da filosofia no coração de uma universidade, católica certamente, isto é, que saiba acolher com respeito a universalidade do pensamento.

Jeanne Marie Gagnebi, é professora titular do departamento de filosofia da PUC/SP e livre-docente do departamento de teoria literária da Unicamp

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Manifesto Internacional – Sim à Cátedra “Michel Foucault e a filosofia do presente” na PUC-SP

Sim à Cátedra “Michel Foucault e a filosofia do presente” na PUC-SP

Assinaturas em http://foucault.lrdsign.com/

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Petição

Sim à Cátedra “Michel Foucault e a filosofia do presente” na PUC-SP

O Cardeal de São Paulo, D. Odilo Scherer, e os bispos de sua Arquidiocese, anunciaram recentemente que não autorizam a criação, prevista há quatro anos, da Cátedra “Michel Foucault e a filosofia do presente” na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). Essa decisão surpreende profundamente todas e todos aqueles, provenientes de vários países, que desde o início sustentaram essa criação, mas igualmente todas e todos que, na mesma Universidade, trabalharam vigorosamente nesse sentido.

Por ocasião do 7. Colóquio Internacional Michel Foucault, em outubro de 2011, que reuniu na PUC-SP dezenas de especialistas na obra desse pensador e centenas de interessados, foi assinada uma carta de apoio a essa iniciativa. A lista dos signatários incluía membros do Collège International de Philosophie (Paris), da Université Paris VIII, da Université Bordeaux Montaigne, da Universidade Nova de Lisboa, da Universidade Complutense de Madrid, da École Normal Supérieure de Paris, da Universidad San Martin na Argentina, da Universidad de los Andes na Venezuela e da Universidad de Valparaiso no Chile. A iniciativa também teve o apoio ativo do Consulado Geral da França em São Paulo. No mesmo ano, a PUC-SP obteve uma cópia dos arquivos em áudio das aulas de Foucault, fornecidos pelo Collège de France, tornando-se assim a única instituição fora da França habilitada a lhes dar acesso público. Sessões de estudo, seminários, debates sobre livros foram organizados a seguir como trabalho preparatório para a criação da Cátedra, suscitando expectativas e um entusiasmo crescente.

A recusa emitida pelo Conselho Superior da Fundação São Paulo desautoriza as instâncias científicas, filosóficas e pedagógicas que aprovaram a iniciativa. A “liberdade acadêmica”, que está no fundamento da vida universitária, foi atropelada.Contudo, sabe-se que o interesse pela obra de Foucault em todo mundo vai bem além das crenças religiosas, e que numerosos pensadores católicos escreveram sobre ele e nele se inspiraram. Assim, em Paris, quando os arquivos Foucault corriam o risco de serem enviados ao exterior, os dominicanos da Biblioteca du Saulchoir acolheram tais arquivos, permitindo que eles permanecessem na França, no local em que Foucault tinha o hábito de trabalhar por horas a fio. Essa biblioteca, herdeira da tradição católica a mais incontestável e não menos aberta a todos os intelectuais parisienses ou de passagem por Paris, acolhe regularmente apresentações e discussões de livros. Além disso, numerosas pesquisas atuais se debruçam sobre a contribuição de Foucault aos estudos sobre o primeiro cristianismo e seu enraizamento na cultura antiga, em especial o estoicismo. Eis aí uma lucidez histórica, complementar aos estudos do historiador anglo-saxão Peter Brown, da qual todos os estudantes e professores que trabalham sobre os primeiros séculos de nossa era tiraram proveito e continuarão a fazê-lo. Nota-se igualmente que a obra de Foucault, depois de As palavras e as coisas, foi fortemente inspirada por um princípio de compaixão e dedicada à governamentalidade, uma questão que transformaria a modalidade das relações humanas e sua conexão íntima com o Direito. São razões a mais para expressar nossa surpresa diante dessa decisão.

Essa Cátedra, que leva o nome de Michel Foucault, não é dedicada à leitura de seus escritos – que hoje já são parte da cultura clássica. Ela está voltada, sob o impulso não exclusivo de seus trabalhos, como o diz seu título, para uma livre análise, informação e debate sobre questões de filosofia e de vida civil contemporâneas. A recusa de uma tal Cátedra, aberta à atualidade, contradiz a deontologia universitaria assim como seu fundamento. A Universidade seria sua primeira vítima. Para além dos professores, estudantes e pesquisadores, é a opinião pública brasileira que com isso se sente afetada. Fomos testemunhas de seus protestos.

Entretanto, todos mantêm a esperança de que o Conselho de bispos renunciará em exercer essa forma de censura e reconsiderará sua recusa. A direção acadêmica da PUC-SP recorreu da decisão. Doravante, cabe à comunidade internacional mostrar que também ela apoia a criação da Cátedra “Michel Foucault e a filosofia do presente”. É o que já faziam os signatários da carta de apoio de outubro de 2011, que convidavam todas e todos que estão comprometidos com o livre exercício do pensamento a juntar-se a eles.

Pétition

Oui à la Chaire « Michel Foucault et la philosophie du présent » à l’Université catholique de São Paulo

Le Cardinal de São Paulo, Odilo Scherer, et les évêques de l’Archidiocèse de la ville viennent d’annoncer qu’ils n’autorisent pas la création, prévue depuis quatre ans, de la Chaire « Michel Foucault et la philosophie du présent » à l’Université catholique de São Paulo (PUC/SP). Cette décision surprend profondément toutes celles et tous ceux, venant de nombreux pays, qui ont soutenu depuis le départ cette création, mais aussi toutes celles et tous ceux qui, dans l’Université catholique de São Paulo, ont travaillé vigoureusement en ce sens.

Lors du 7e Colloque international Michel Foucault d’octobre 2011, qui avait réuni à la PUC/SP plusieurs dizaines de spécialistes de l’œuvre de ce penseur et des centaines d’auditeurs, une lettre avait été signée en soutien à cette initiative. La liste des signataires comprenait des membres du Collège international de philosophie (Paris), de l’Université Paris 8, de l’Université Bordeaux Montaigne, de l’Université nouvelle de Lisbonne, de l’Université Complutense de Madrid, de l’École normale supérieure de Paris, de l’Université San Martin en Argentine, de l’Université de los Andes au Venezuela et de l’Université de Valparaiso. L’initiative avait reçu également le soutien actif du Consulat général de France à São Paulo. La même année, la PUC/SP avait obtenu une copie des archives sonores des cours de Foucault fournie par le Collège de France, devenant ainsi la seule institution hors de France à pouvoir y donner un accès au public. Des séances d’études, des séminaires, des débats sur des livres ont ensuite été organisés comme travail préparatoire pour la création de la Chaire, suscitant des attentes et un enthousiasme grandissants.

Le refus émis désormais désavoue les instances scientifiques, philosophiques et pédagogiques de la PUC/SP qui ont approuvé l’initiative. La « liberté académique », au fondement de la vie universitaire, est ainsi bafouée. Pourtant, on sait que l’intérêt porté dans le monde entier à l’œuvre de Foucault va bien au-delà des croyances religieuses et que maints penseurs catholiques ont écrit sur elle et s’en ont inspirés. Ainsi, à Paris, quand il a été question que les archives Foucault partent à l’étranger, les dominicains de la Bibliothèque du Saulchoir ont hébergé ces archives, permettant qu’elles restent en France à l’endroit où Foucault avait l’habitude travailler des heures entières. Cette bibliothèque, relevant de la tradition catholique la plus incontestable et non moins largement ouverte à tous les intellectuels parisiens ou de passage à Paris, accueille régulièrement des présentations et discussions de livres. Par ailleurs, de nombreuses études actuelles portent sur l’apport de Foucault aux études sur le premier christianisme et son enracinement dans la culture antique, particulièrement stoïcienne. C’est là une lucidité historique, complémentaire des études de l’historien anglo-saxon Peter Brown, de quoi tous les étudiants et enseignants des premiers siècles de notre ère ont profité et profiteront encore. On note également que l’œuvre de Foucault après Les Mots et les choses est fortement inspirée par un principe de compassion et dédiée à la gouvernementalité, une question qui transformerait la modalité des relations humaines et leur intime connexion avec le droit. Ce sont des raisons de plus pour exprimer notre surprise face à cette décision.

Cette chaire, portant le nom de Michel Foucault et lui rendant un légitime hommage n’est pas dédiée à la lecture de ses écrits – qui sont maintenant partie de la culture classique. Elle se dit dans son intitulé explicitement tournée (sur l’impulsion non exclusive de ses travaux) à une libre analyse, information et débat des questions de philosophie et de vie civile contemporaines. Le refus d’une telle chaire, ouverte sur l’actualité, contredit à la déontologie universitaire autant qu’à son fondement. L’Université en serait la première victime. Au-delà des enseignants, étudiants et chercheurs, l’opinion publique brésilienne s’en est ému. Nous témoignons de sa protestation. Cependant, tous gardent l’espoir que le Conseil des évêques renoncera à exercer cette forme de censure et reviendra finalement sur son refus. La direction académique de la PUC/SP a fait appel de la décision. Désormais, c’est à la communauté internationale de montrer, qu’elle aussi, soutient la création de la Chaire « Michel Foucault et la philosophie du présent ». C’est ce que faisaient déjà les signataires de la lettre de soutien d’octobre 2011, qui invitaient toutes celles et ceux qui restent attachés au libre exercice de la pensée à se joindre à eux.

Petition

Yes to the institution of the “Michel Foucault and the Philosophy of the Present Chair” at PUC São Paulo

Both São Paulo’s Cardinal, Odilo Scherer, and the Bishops of his archdiocese, recently announced that they do not authorize the creation of what had already been announced 4 years ago: the institution of the “Michel Foucault and the Philosophy of the Present Chair” at the Pontifical Catholic University of São Paulo (PUC-SP). This decision not only profoundly surprised all those who, coming from many countries, had from the very beginning embraced this initiative, but also all those who, within PUC-SP itself, had worked vigorously to guarantee the institution of this Chair bearing Michel Foucault’s name.

During the 7th International Michel Foucault Conference, held in October 2011, and which brought together dozens of specialists and interested researchers in Foucault’s oeuvre, a letter was signed supporting the initiative. The list of signees included members of the Collège International de Philosophie (Paris), of the University of Paris VIII, the University of Bordeaux Montaigne, the New University of Lisbon, Madrid’s University Complutense, Paris’ École Normal Supérieure, the Universidad San Martin in Argentina, the Universidad de los Andes in Venezuela and the University of Valparaiso in Chile. The initiative also received support from the General Consulate of France in São Paulo. In 2011, PUC-SP received a copy of the audio archives of Foucault’s classes donated by the Collège de France, in what made PUC-SP the only institution outside France allowed to grant them public access. Having in view the institution of the Michel Foucault and the Philosophy of the Present Chair at PUC-SP, what followed were study sessions, seminars and debates on specific literature as preparatory work for this eagerly anticipated event, all of which generated high expectations and a growing enthusiasm.

The decision to reject the institution of the Michel Foucault and the Philosophy of the Present Chair de-authorizes the scientific, philosophical and pedagogical committees which approved the initiative. ‘Academic freedom’, which stands as a basic fundament of university life, was breached. However, if it is well established that the interest in Foucault’s work goes way beyond religious beliefs, it is no less evident that many Catholic thinkers wrote about and inspired themselves in Foucault’s work. This latter fact – to which we could also add the many studies presently considering Foucault’s contribution to an understanding of Christianity – is ever so more highlighted when Dominicans from the Library du Saulchoir welcomed the archives during the period in which these archives faced the risk of being sent abroad, in what allowed them a safe haven in the very place Foucault worked for hours on end.

This Library, which is irrefutably heir to the Catholic tradition and not for that reason less open to Parisian intellectuals or intellectuals passing through Paris, regularly welcomes presentations and discussions covering diverse fields. It is in light of this plurality that many contemporary studies considering Foucault’s contribution to the study of the origins of Christianity and its rooting in ancient culture, in particular, in Stoic philosophy, have been conducted in the Library. What we find here is an example of historical lucidity of the sort evidenced by the work undertaken by the historian Peter Brown, and upon which students and professors focusing on the first centuries of our era have taken full advantage of and will continue to do so. It is also worth highlighting that, after The Order of Things, Foucault’s own work was strongly inspired by a principle of compassion and dedicated to the question of ‘governmentality’, a question which would transform our way of understanding human relations and their intimate connection with the law.

All these facts already define an excess of reasons justifying our perplexity when faced with the Council of Bishops’ decision. This Chair, which honors Michel Foucault, is not simply dedicated to the readership of his texts (which, today, are already impossible to ignore as part of classical culture): it is also turned towards to the analysis – which is not exclusive to his oeuvre – of the questions posed today by both thought itself and the demands of civil life. The refusal of such a Chair, a Chair which, carrying Michel Foucault’s name, is by nature open to actuality, radically contradicts the deontology of University life as well as its most basic fundament: the exercise of free thought. As such, it can only be the University itself which stands as the first victim of this decision: beyond professors, students and researchers, it is Brazilian public opinion which understands itself to be attacked by such a decision. And we have been witnesses of these protests.

All, however, hope that the Council of Bishops will renounce what evidently stands as a form of censorship, revoking its rejection. The Academic Board at the PUC-SP has appealed the decision. From now onwards, it is up to the international community to show that it supports the institution of the Michel Foucault and the Philosophy of the Present Chair at the Pontifical Catholic University of São Paulo. Such is what the signees of the letter supporting this initiative did in October 2011, a letter which, for the very reason of defending the institution of a Chair bearing Michel Foucault’s name, is itself already an invitation to all those committed to exercise of free thought to join them.

Petición

Sí a la Cátedra “Michel Foucault y la filosofía del presente” en la PUC de São Paulo

El Cardenal de São Paulo, monseñor Odilo Scherer, y los obispos de su Arquidiócesis, anunciaron recientemente que no autorizan la creación ‒prevista hace cuatro años‒ de la Cátedra “Michel Foucault y la filosofía del presente” en la Pontificia Universidad Católica de São Paulo (PUC-SP), en Brasil. Esta decisión sorprende profundamente a todas y a todos aquéllos que, desde diversos países, han sostenido desde el principio dicha creación, e igualmente a todas y a todos los que, en la propia PUC-SP, han trabajado vigorosamente en tal sentido.

Con ocasión del 7º Coloquio Internacional Michel Foucault, en octubre de 2011, cuando se congregaron en la PUC-SP decenas de expertos en la obra de este pensador y centenares de interesados, se firmó una carta de apoyo a esta iniciativa. La lista de signatarios incluía a miembros del Collège International de Philosophie (París), de la Université Paris VIII, de la Université Bordeaux Montaigne, de la Universidade Nova de Lisboa, de la Universidad Complutense de Madrid, de la École Normal Supérieure, de París, de la Universidad Nacional de General San Martín, en Argentina, de la Universidad de los Andes en Venezuela y de la Universidad de Valparaíso, en Chile. Esa iniciativa contó también con el apoyo activo del Consulado General de Francia en São Paulo. Ese mismo año, el Collège de France le suministró a la PUC-SP las copias de los archivos de audio de las clases de Foucault, con lo cual esta última se convirtió en la única institución fuera de Francia habilitada a dotar de acceso público a dicho material. Posteriormente se organizaron sesiones de estudios, seminarios y debates, en calidad de trabajos preparatorios con miras a la creación de la Cátedra, con una creciente expectativa y el consiguiente entusiasmo.

El rechazo del Consejo Superior de la Fundação São Paulo desautoriza a las instancias científicas, filosóficas y pedagógicas que aprobaron esta iniciativa. Se ha atropellado así la “libertad académica”, que se sitúa en el propio fundamento de la vida universitaria. Sin embargo, es sabido que el interés en la obra de Foucault en todo el mundo va mucho más allá de las creencias religiosas, y que numerosos pensadores católicos escribieron sobre él, y en él se inspiraron. Así fue en París, cuando los archivos Foucault corrían el riesgo de ser enviados al exterior, y los dominicanos de la Bibliothèque du Saulchoir los recibieron, para así permitir que se quedasen en Francia, en un lugar donde Foucault tenía el hábito de trabajar durante horas ininterrumpidamente. Esa biblioteca, heredera de la más incuestionable tradición católica, y no menos abierta a todos los intelectuales parisinos o de paso por París, es sede regularmente de presentaciones y discusiones de libros. Asimismo, numerosas investigaciones actuales se enfocan en los aportes de Foucault a los estudios sobre el primer cristianismo y sus raíces en la cultura antigua, especialmente en el estoicismo. He allí una lucidez histórica y complementaria a los estudios del historiador anglosajón Peter Brown que aprovecharon todos los estudiantes y los profesores que trabajan sobre los primeros siglos de nuestra y lo seguirán haciendo. Cabe acotar igualmente que la obra de Foucault, luego de Las palabras y las cosas, se inspiró fuertemente en un principio de compasión y se abocó al tema de la gubernamentalidad, una cuestión que transformaría la modalidad de las relaciones humanas y su conexión íntima con el derecho. Son éstas razones extras para expresar nuestro asombro ante esta decisión.

Esta Cátedra, que lleva el nombre de Michel Foucault, no se dedica a la lectura de sus escritos, que hoy en día ya forman parte de la cultura clásica, sino que se aboca ‒con el impulso de sus trabajos, aunque no exclusivamente‒ y tal como su denominación lo dice, a la libertad de análisis, de información y de debate sobre temas inherentes a la filosofía y a la vida civil contemporánea. El rechazo de una Cátedra así, abierta a la actualidad, contradice la deontología universitaria, como así también su fundamento. La Universidad sería su primera víctima. Más allá de los docentes, los estudiantes y los investigadores, la propia opinión pública brasileña se siente con ello afectada. Fuimos testigos de sus protestas.

No obstante, todos mantienen la esperanza en que el Consejo de obispos renunciará a ejercer esta forma de censura y reconsiderará tal rechazo. La dirección académica de la PUC-SP ha apelado esa decisión. Cabe ahora a la comunidad internacional mostrar también su apoyo a la creación de la Cátedra “Michel Foucault y la filosofía del presente”. Es lo que hicieron los signatarios de la carta de octubre de 2011, quienes invitaban a juntarse a ellos a todas y a todos aquéllos que están comprometidos con el libre ejercicio del pensamiento.

Claude Imbert (École Normale Supérieure de Paris)

Cristina Lopez (Universidad San Martin)

Diogo Sardinha (Presidente do Collège International de Philosophie)

José Jara (Universidad de Valparaíso)

José Luis Câmara Leme (Universidade Nova de Lisboa)

Jorge Dávila (Universidad de Los Andes)

Guillaume Le Blanc (Université Bordeaux Montaigne)

Patrice Vermeren (Diretor do Département de philosophie de l’Université de Paris-VIII).

Rodrigo Castro Orellana (Universidad Complutense de Madrid)

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“Cátedra Michel Foucault e a Filosofia do Presente” – debate

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A Faculdade de Ciências Sociais propõe debate sobre a “Cátedra Michel Foucault e a Filosofia do Presente”.

Programação:
Dia 13/05 – 9h30 às 12h – Mesa Redonda com a participação de: Márcio Alves da Fonseca (Faficla),
Denise Bernuzzi de Sant’Anna (Facsoc).
Dia 13/05 – 19h30 às 22:00hs – Mesa Redonda com a participação de Salma Tannus Muchail (Faficla), Edson
Passetti (Facsoc) e Peter Paul Pelbart (Fachs).
Local: Auditório 333
Contamos com a participação de todos.
Serão emitidos certificados de presença aos participantes.

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Cátedra “Michel Foucault e a filosofia do presente”

Manifestação do Departamento de Filosofia da PUC-SP

Os professores do Departamento de Filosofia da PUC-SP vêm, por meio deste, expressar o mais profundo lamento mediante a decisão do Conselho Superior da Fundação São Paulo de não apenas recusar a proposta de criação da Cátedra “Michel Foucault e a filosofia do presente” na Universidade, mas também de se negar a julgar o mérito do recurso apresentado pelos proponentes da Cátedra.

Em um contexto de crise sem precedentes da Universidade, lamento é a palavra que mais nos aproxima da sensação de uma névoa obscurantista que se esconde nas entrelinhas dessa decisão. Lamento é o sentimento que resta quando somos silenciados e, principalmente, quando o silêncio se estabelece pela força da autoridade mesmo quando nos empenhamos na construção de argumentos que possibilitem o diálogo para edificar o respeito à diversidade de pensamento.

Neste contexto, é preciso admitir a importância das pesquisas de Michel Foucault: sem apelar para as petições de princípio ou mesmo para comparações hiperbólicas, Foucault resgatou o discurso silenciado dos loucos, dos prisioneiros, enfim, de todos os alijados do discurso da pretensa racionalidade cientificista que traçou os contornos da modernidade. Tal resgate só foi possível graças um trabalho de análise e pesquisa rigoroso e minucioso. A minúcia e o rigor do trabalho de Foucault por si só já justificariam a criação de uma Cátedra Universitária com seu nome, independente dos temas e problemas abordados em sua pesquisa histórico-filosófica.

Por esta e outras razões o departamento de filosofia aprovou por unanimidade a criação da Cátedra ”Michel Foucault e a Filosofia do Presente”. Não bastasse o reconhecimento da qualificação institucional e das relações internacionais e acadêmicas que uma Cátedra proporciona, o departamento de filosofia entende que a criação desta cátedra não se limita a privilegiar um autor ou uma obra específica mas visa, também, toda a “filosofia do presente”.

Destacamos, dentre outros, alguns motivos que levaram o departamento de filosofia a aprovar a Cátedra ”Michel Foucault e a Filosofia do Presente”:
1) O reconhecimento internacional da importância do trabalho de pesquisa efetuado por alguns professores do Departamento de Filosofia da PUC-SP e alunos do curso de graduação e pós-graduação da PUC-SP (Grupo de pesquisa Foucault PUC/CNPQ). Reconhecimento este que honrou a Universidade com um convite que nasceu da iniciativa do Consulado Geral da França em São Paulo, em comum acordo com professores representantes das renomadas Instituições: École Normale Supérieure de Paris, Université de Paris VIII, Collège Internacional de Philosophie (França), Universidade de Lisboa (Portugal), Universidad Complutense de Madrid (Espanha), Universidad San Martin (Argentina), Universidad de Caracas (Venezuela),Universidad de Valparaíso (Chile).

2) A possibilidade de incitar investigações sistemáticas e críticas acerca de problemas que merecem estudo na contemporaneidade, assim como um questionamento sobre a própria noção de “contemporâneo”.

3) A criação de parcerias e trocas entre Instituições de diversos países, criando possibilidades efetivas para o prosseguimento de estudos dos alunos de filosofia e de outros cursos da PUC-SP, bem como, de toda comunidade acadêmica no Brasil.

Poderíamos elencar diversas outras razões para viabilização da criação da Cátedra “Michel Foucault e a filosofia do presente”. Todas claras e evidentes. Tal evidência e clareza levaram a proposta a ser aprovada com louvor em todas as instâncias deliberativas da Universidade, relevada a diversidade de áreas de pesquisas e de pesquisadores das mais diferentes filiações contempladas em nossa Universidade.

Por fim, não há dúvida que a obra de Foucault gerou e, ainda gera, inúmeras interpretações, daí sua riqueza e complexidade. A decisão do Conselho Superior da Fundação São Paulo, ao impedir a criação da Cátedra “Michel Foucault e a filosofia do presente” na Universidade, não consiste na defesa dos princípios católicos – o que este Conselho Superior pode e deve fazer -, mas no exercício de uma censura que lembra tempos infelizes. Impedir a abertura de um espaço destinado ao estudo sério e crítico de um autor e de uma obra que não pode ser negligenciada na história do pensamento contemporâneo, seria negar o “outro” como configuração do “mesmo”, problema presente na obra de Michel Foucault e que deve ser considerado pelo Conselho Superior da Fundação São Paulo.

São Paulo, 03 de maio de 2015.

Departamento de Filosofia da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo

Para firmar apoio a este documento: 

https://secure.avaaz.org/po/petition/Conselho_Superior_da_Fundacao_Sao_Paulo_criacao_da_Catedra_Michel_Foucault_e_a_filosofia_do_presente_na_PUCSP/?nuHvrjb