Arquivo mensal: fevereiro 2015

1as Jornadas Sul-americanas de Filosofia Árabe

MOS8

1as Jornadas Sul-americanas de Filosofia Árabe

1as Jornadas Sudamericanas de Filosofía Árabe‏
“Estudos em homenagem ao Prof. Carlos Arthur Nascimento”

PUC-SP – Campus Monte Alegre. São Paulo, Brasil

Auditório 333 – Edifício Bandeira de Mello 

Programação

27/04 –– 8h20 – 12h Segunda-feira  – Lunes  

Minicurso: “Conceptos fundamentales de la filosofía árabe: una aproximación histórico-filológica”

Prof. Dr. Kamal Cumsille – Universidade de Chile / Centro de Estudios Árabes

19h – 22h

Pronunciamento do Centro de Estudos Árabes da Universidade do Chile e

Coordenação do Curso de Filosofia da PUC-SP

Discursos em Homenagem ao Prof. Carlos Arthur Nascimento

Conferência de abertura – Prof. Dr Carlos Arthur Nascimento

“Tomás de Aquino: a unidade do intelecto, contra os averroístas”.

Mediação: Prof. Dr. Jamil Ibrahim Iskandar

Jantar de confraternização – Cena de Camaradería

A partir das 22h

Local: “Central das Artes”. Rua Apinagés, 1081. Sumaré, São Paulo – SP

http://centraldasartes.com.br/

28/04 – Terça-feira – Martes

08h20 – 12h

Minicurso: “Conceptos fundamentales de la filosofía árabe: una aproximación histórico-filológica” (contin.)

Prof. Dr. Kamal Cumsille – Universidade de Chile – Centro de Estudios Árabes

19h – 22h

Conferência

Prof. Dr. Rodrigo Karmy – Universidade de Chile / Centro de Estudios Árabes

“Homo non cogitat. Averroes y la potencia del pensar”.

Mediação: Prof. Dr. Jonnefer Barbosa

29/04 – Quarta-feira – Miércoles

Sessão de Comunicações – Ponencias

8h às 8h50 – “A Teoria do Intelecto segundo Al-Farabi. Teologia e Filosofia no Mundo Árabe Latino Medieval”.  Prof. Dr. Jakob Hans Josef Schneider (UFU)

8h50 às 9h40 – “Um paroxismo do ‘Experimento do Homem suspenso no Espaço’ ou a maior afinidade de Avicena com a cartografia de Aristóteles do que com a Neoplatônica”. Prof. Dr Antônio Carlos de Madalena Genz (UFRGS / Faculdades IDC-RS)

09h40 às 10h30 – “A filosofia da alma de Avicena e o sermão alemão 17 de Mestre Eckhart: um estudo das fontes islâmicas do pensamento eckhartiano”. Renata Aparecida Lucas (UFES)

10h30 às 11h Intervalo

11h às 11h50 – “Abstração intelectual em Avicena”. Allan Neves Oliveira Silva (UFMG)

11h50 às 12h40 – “Impressão na alma ou concepção do intelecto? Tomás de Aquino, leitor de Avicena”. Matheus Pazos (UNICAMP)

Mediação: Prof.a Dra Yolanda Gamboa Muñoz

Conferências

19h – 22h

Prof. Dr. Jamil Ibrahim Iskandar – UNIFESP

“Avicena entre a filosofia e a religião”

Prof. Dra Cecilia Cavaleiro de Macedo  – UNIFESP

“A filosofia judaica em árabe”

Mediação: Prof. Dr. Kamal Cumsille     

30/04 – Quinta-feira – Jueves

Sessão de Comunicações – Ponencias

08h às 08h50 – “Da imaginação e dos fantasmas: poéticas imemoriais”.  Prof. Dr. Vinícius Nicastro Honesko (UFPR)

08h50 às 9h40  – “Tempos Modernos e a Experiência Comum”. Marcelo Jungmann Pinto (UNIFESP / IFG)

09h40 às 10h30 – “A função da resistência na geração elementar: Tomás de Aquino crítico de Averróis latino”. Evaniel Brás dos Santos (UNICAMP)

Intervalo 10h30 às 11h

11h às 11h50 – “Os percursos manuscritos e editoriais das Crônicas Históricas quinhentistas e a constituição da imagem do contato entre “mouros” e portugueses no Marrocos”. Elena Lombardo (DLCV/FFLCH/USP)

Mediação: Prof. Dr. Jonnefer Barbosa

19h – 22h

Conferências

Prof. Dr. Kamal Cumsille – Universidade do Chile / Centro de Estudios Árabes

“Sobre un deseo ingobernable. Un lectura de la Ciudad Ideal de Alfarabi”.

Prof. Dra Rosalie Pereira – USP

“Al-Fârâbî e a Política, a Arte Real”.

Mediação: Prof. Dr. Jakob Hans Josef Schneider

Demais informações

http://jornadaspucsp.blogspot.com.br/2015/02/1as-jornadas-sul-americanas-de.html

Organização: 

Coordenação do Curso de Filosofia da PUC-SP

Departamento de Filosofia da PUC-SP  

Centro de Estudos Árabes da Universidade do Chile 

Apoio:

FAPESP

Faculdade de Filosofia, Comunicação  Letras e Artes da PUC-SP – FAFICLA – PUC-SP  

CAFIL-PUCSP

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COLÓQUIO ERNST CASSIRER

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Programação:

16 h. Abertura: Prof. Dr. Mario Ariel González Porta (Líder do GP-CNPq “Origens da filosofia contemporânea” – Membro da “Internationale Cassirer Gesellschaft”). 

16h30: Prof. Dr. Christian Möckel (Universidade Humboldt – Berlim, Presidente da “Internationale Cassirer-Gesellschaft”; Diretor do Archivo Cassirer Universidade Humboldt):

“O símbolo e o simbólico no pensamento de Ernst Cassirer”

17h30 Prof. Dr. Olivier Ferón (PUC-PR, Membro da Internationale Cassirer Gesellschaft):
“O Mito segundo Ernst Cassirer e Hans Blumenberg”

18h30 Prof. Mario Ariel González Porta (PUC-SP):
“A fundamentação da ciência no contexto de uma “Filosofia das Formas simbólicas”

Data: 19 de março – 16 às 20 h.
Local: Auditório 100 – Campus Monte Alegre

Organização:
Grupo de Pesquisa CNPq “Origens da filosofia contemporânea”
Programa de Estudos Pós graduados em Filosofia
Departamento de Filosofia – PUC-SP

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Palestras no Chile

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No dia 25.03 o prof. Mário Porta, do departamento de Filosofia da PUC-SP, ministrará a aula inaugural do semestre letivo na Universidade Diego Portales, Santiago, Chile, sob o tema “Do platonismo a fenomenologia”, e, no dia 27.03, a palestra “Critica ao psicologismo e concepção de subjetividade em Frege” na Universidade Católica do Chile. 

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Conferência com o Prof. Dr. Ingolf Max

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Conferência 

Prof. Dr. Ingolf Max
Universidade de Leipzig

“Juizos sintéticos a priori em Kant e pensamentos em Frege como “casos intermediários” (Wittgenstein)”

O termo “caso intermediário“ (Zwischenglieder) faz referência às “Investigações filosóficas de Wittgenstein § 122”. Ali Wittgenstein fala da descoberta e invenção de “casos intermediários”. A minha tese é que tanto Kant quanto Frege têm inventado casos intermediários para responder a pergunta como é a possível a metafisica ou a lógica como ciência respectivamente.

Data: 16 de março – 19 h.
Local: Auditório 100 – Campus Monte Alegre

Organização: 
Grupo de Pesquisa CNPq “Origens da filosofia contemporânea”
Programa de Estudos Pós-Graduados em Filosofia
Departamento de Filosofia – PUC-SP

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Entrevista com a Professora Jeanne Marie Gagnebin

Entrevista dada ao Suplemento Cultural de Pernambuco, publicada em 27 de janeiro de 2015.

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No texto “Estética e experiência histórica em Walter Benjamin” a senhora fala sobre o risco de reduzir o filósofo a “belos livros de Walter Benjamin”. Gostaria que a senhora comentasse sobre como o mercado editorial de língua portuguesa trata o pensamento benjaminiano hoje. Ainda temos muitos problemas em torno das traduções? Há comentaristas que a senhora gostaria de ver traduzidos com mais urgência? (Acompanhando as notas do seu livro penso ter algumas indicações para essa resposta…) Algumas traduções já editadas precisam ser refeitas ou revisadas?

São muitas questões juntas! As obras de Walter Benjamin demoraram a cair no domínio público porque ele morreu durante a Segunda Guerra: são 70 anos de prazo depois da morte, neste caso. Até o fim de 2010, a Editora Suhrkamp, em Frankfurt, detinha os direitos autorais sobre obra e traduções, exigindo que todas obras de Benjamin fossem traduzidas segundo e seguindo a ordem das Gesammelte Schriften dessa editora (“Escritos reunidos” – não são “Obras completas” porque muita coisa se perdeu e talvez possa ser encontrada ainda!). Isso complicou muito as traduções. Em Portugal, João Barrento traduziu muitos desses volumes, republicados hoje na Editora Autêntica.

São boas traduções, mas seguem essa ordem imposta pela Editora Suhrkamp, que não é necessariamente a mais sensata. A partir de janeiro de 2011, temos um “boom” de traduções de W. Benjamin no Brasil. De maneira desconectada, repetindo textos, muitas vezes. É estranho que não se consiga chegar a um acordo, mas esse é um problema maior: o de uma discussão intelectual maior entre os vários pesquisadores e tradutores de Benjamin. Pessoalmente, tento ajudar na edição crítica empreendida pela Editora 34. O próximo volume deve trazer textos ligados à filosofia da história, com notas críticas. A Editora Brasiliense está tentando reeditar os três volumes pioneiros publicados nos anos 80 com revisões. Infelizmente, até agora, me parece que essa revisão poderia ter ficado mais cuidadosa.

Pessoalmente, gostaria muito de ver uma tradução literária bonita tanto da Infância em Berlim por volta de 1900 como do primeiro esboço desse texto, a Crônica berlinense. E também da Correspondência de Benjamin, mas isso demora muito.

Devemos cuidar para não cair nem no extremo do valor mercadológico de obras conhecidas (há, por exemplo, duas edições recentes da segunda versão, finalmente reencontrada no arquivo Max Horkheimer, do ensaio sobre “A obra de arte na época de sua reprodutibilidade técnica”, me parece demais!) nem no outro extremo: a erudição pela erudição. É imprescindível tentar sempre fazer traduções anotadas que indicam o contexto político e histórico dos textos. Em suma: tentar não transformar Benjamin em mais um fetiche cultural, mas cuidar do aspecto questionador, inquieto, sim, subversivo do seu pensamento. Todo seu pensamento lutou contra essa fetichização da cultura e da escrita.

Em relação aos comentadores. Primeiro, acho que devemos, no Brasil, cuidar de ler melhor a nós mesmos: há já uma tradição benjaminiana brasileira, reconhecida até na Alemanha, deveríamos tentar nos ler e nos criticar (cordialmente, mas nos criticar sim) mais. No meu último livro, cito várias obras de referência em alemão, é bem verdade. Aí não sei se devemos traduzi-las… Ou insistir para que mais estudiosos estudem alemão e possam ler toda essa literatura em alemão! Agora, o volume Walter Benjamin, Memória, organizado por Uwe Steiner para o centenário de Benjamin em 1992 , poderia ser bem traduzido com seus ensaios quase “clássicos” de grandes comentadores.

Espero que ainda neste ano saia, pela Editora 34, a tradução de um belo livro sobre W. Benjamin do poeta catalão Vicente Valero: Experiência e Pobreza. Walter Benjamin em Ibiza.

Em 2012, numa fala sua aqui no Recife, achei interessante com a senhora criticava algumas apropriações que fazemos de conceitos de Benjamin. A senhora falava sobre a noção, achatada, que se costuma ter do conceito de “melancolia” em Benjamin. Também comentou o nosso uso do termo “povo”, que não levaria em conta a ambiguidade desta palavra. Pareceu-me que a sensibilidade benjaminiana por vezes estava um tanto distante de nós, os brasileiros, ou, nós, os falantes de língua portuguesa. A pergunta que faço é: o que significa pensar Benjamin no contexto social, político, cultural brasileiro de hoje? O que seria exatamente na abordagem de temas históricos e artísticos brasileiros oferecer ao pensamento de Benjamin o mesmo tratamento que seu pensamento oferecia às ruínas do seu tempo?

Essa questão, no fundo, não diz somente respeito à “apropriação”, para retomar sua palavra, da obra e dos conceitos de Benjamin, mas é uma questão hermenêutica muito mais ampla. Ela se coloca cada vez que lemos ou estudamos textos escritos numa outra época e, igualmente, como você ressalta, em outra língua, porque se pensa de maneira diferente segundo as línguas que se fala… Por exemplo, se pensa diferente se você tem três gêneros (masculino, feminino, neutro) ou dois (masculino, feminino) ou nenhum. Ou se se fala do “ser” segundo a modalidade de “ser” e de “estar”, ou somente de sein ou d’être. Cada língua tem seus pressupostos metafísicos… e, também, históricos. A palavra “Volk” (povo) em alemão não pode ser usada mais de maneira inocente depois do nazismo e de ter ainda, na memória auditiva e afetiva, a voz de Hitler.

Agora, essas considerações podem até se estender a falas e textos da mesma língua e da mesma época. A filosofia pode nos ajudar a tomar sempre um certo recuo em relação ao uso dos conceitos, também das metáforas ou simplesmente das palavras comuns. É um cuidado interpretativo e crítico porque as nossas palavras não são simplesmente “instrumentos’, mas carregam junto associações históricas e semânticas (sem falar das inconscientes!) e visões do mundo como diziam os Românticos alemães.

Então, desculpe, mas não tenho certeza que devemos hoje, no Brasil, ter “o mesmo tratamento” em relação a temas artísticos ou históricos que Benjamin. Parece-me difícil, justamente porque é tão diferente. O que podemos, sim, reter de sua reflexão é a atenção pelas ações e expressões dos “oprimidos’, para usar uma palavra dele, isto é, expressões de resistência, de busca de outros caminhos, de esperança de outros mundos, também de desesperança. E a desconfiança em relação ao modelo atual, impositivo, de sucesso e de felicidade a qualquer preço, num sistema de consumismo cego e de exploração cada vez maior. Essas exigências são do pensamento de esquerda em geral. Benjamin também tem uma atenção singular pelo detalhe e pela espessura material da linguagem; ele mostra igualmente uma grande desconfiança em relação às construções totalizantes, mesmo ‘dialéticas”… Esse lado “filológico” seu me parece geralmente pouco valorizado e merece ser ressaltado, porque vai contra uma pressa e uma voracidade muitas vezes confundidas com “brilhantismo” intelectual.

Confesso que foi muitíssimo deleitoso ler o comentário da senhora sobre a imagem de Jeff Wall. Pergunto se a senhora gostaria de comentar algum outro trabalho contemporâneo em que enxerga aberturas para uma aproximação benjaminiana. Gostaria de falar um pouco da sua relação com a produção artística contemporânea?

Costumo falar para meus alunos que na discussão/briga entre Adorno e Benjamin sobre a perda da “aura” e a função utópica ou alienante do cinema, ambos podem nos ajudar: Adorno para entender o que é a “indústria cultural” que reina soberana na nossa sociedade; e Benjamin para entender as tentativas de práticas culturais e artísticas contemporâneas que se caracterizam muito mais pela “experimentação” do que pela criação de uma “obra” acabada e singular. Penso notadamente em todas as práticas como instalações, performances, atividades teatrais ou circenses ou cinematográficas lúdicas e efêmeras. A partir notadamente de suas reflexões sobre o teatro “épico’ de Brecht, mas também sobre o teatro de crianças proletárias (que ele conheceu a partir de sua amiga Asja Lacis), Benjamin tentou pensar mais em termos de “ordenação experimental” (Versuchanordnung) do que em termos mais clássicos de “obra de arte” (Kunstwerk).

Isso certamente nos ajuda a pensar as práticas artísticas contemporâneas que não podem mais ser lidas somente à luz de uma estética do belo e do sublime, mas que também apontam para algo como exercícios de alteridade e de transformação.

Pessoalmente, não sou especialista nem em artes plásticas nem em cinema. Gosto muito de um cineasta chinês, já bastante famoso apesar da juventude, Jia Zhangke (indico um livro recente de Walter Salles e Jean-Michel Frodon, O mundo de Jia Zhangke, CosacNaify, 2014). Quando vejo seus filmes, rodados geralmente com câmera digital, ágeis, ternos e cruéis, sinto um ‘ar de família’ com Benjamin. É um cinema documentário e de ficção, fala de pessoas comuns, anônimas, do conflito entre a tradição milenar e a modernidade acelerada, do campo que desparece e das megacidades, falam da tradição que vai desparecendo, mas que continua pesando como chumbo (como em Kafka), da memória afetiva e corporal, de tentativas de solidariedade, de tentativas de sobrevivência, de ‘linhas de fuga” que às vezes dão certo, na maioria das vezes não dão. São filmes ternos e contundentes sem grandes efeitos nem grandes discursos (daí talvez a importância de uma câmera mais leve). Há neles um gesto de atenção e de esperança triste que me lembra os textos e também a situação histórica de Benjamin, essa catástrofe que muda de semblante, mas que continua sob o manto da normalidade. “A construção histórica é dedicada à memória dos sem nomes” (“Dem Gedächtinis der Namenlosen ist die historische Konstruktion geweiht.” Walter Benjamin, Gesammelte Schriften I-3, p. 1243, Suhrkamp Verlag, Frankfurt/Main, 1974) diz Benjamin; talvez essa frase também possa definir práticas artísticas como o cinema de Jia Zhangke.

Mais perto de nós, claro, também penso num filme como Cabra marcado para morrer de Eduardo Coutinho, um grande filme sobre lutas, memória e transmissão, tentativas de soterrar essas lutas e essa memória.

No texto sobre “Limiar: entre a vida e a morte”, a senhora fala a respeito da digressão (pensar por “desvio”), um pensamento em que se abandone a “soberania do sujeito do pensar”, e que possa, enfim, “pensar devagar”. O que significa “pensar devagar” no contexto da academia brasileira hoje? Se os pesquisadores e professores são pressionados por certa lógica produtivista, a quem restou o papel de “pensar devagar”, hoje, no Brasil?

Pois é, ficamos todos escravos dos curricula Lattes e da contabilidade da Capes. Pode-se entender que essas avaliações todas tiveram origem numa tentativa de reduzir algumas práticas de malandragem e de picaretagem na vida acadêmica. Não sei se o conseguiram. Agora, também participam do produtivismo e da aceleração que caracterizam o capitalismo concorrencial. Em termos marxistas clássicos, é o triunfo do valor de troca sobre o de uso (para que tantas revistas, tantos artigos, até tantos livros que ninguém lê, mas que contam pontos na carreira de alguém?). A ciência se tonou uma indústria, uma “empresa”, um Betrieb como já diziam Adorno e Horkheimer nas primeiras páginas da Dialética do Esclarecimento.

Em termos de ensino no Brasil, uma vantagem consiste no fato que, graças ao CV Lattes, há uma certa ‘transparência’ sobre a vida acadêmica das pessoas. Mas é uma transparência opaca, porque não diz respeito nem à qualidade dos textos escritos nem à qualidade do ensino, a meu ver fundamental na atuação de um professor. Temos cada vez mais pesquisadores bastante restritos na sua temática (o que permite especialização, certamente, mas não necessariamente comunicação e transmissão dos saberes adquiridos) e cada vez menos professores felizes em ensinar, que saibam entusiasmar seus alunos e, ao mesmo tempo, exigir deles um esforço de questionamento e de aprofundamento. Ora, me parece que disso que o ensino brasileiro mais precisa desde o ensino fundamental até a pós-graduação: a alegria e a exigência no ensino e no aprendizado.

Sei que posso fazer essas críticas porque sou uma velha professora respeitada, em particular graças ao seu CV Lattes! Agora, para mim, o ensino da filosofia deveria ousar resistir a essa acumulação e a essa pressa, justamente porque é busca, crítica, proposta e inventividade, porque não sabe com certeza aonde vai, aonde o logos pode nos levar como diz Sócrates. Há vários anos escrevi um pequeno texto sobre isso, acho que saiu na internet sob o título “o métodos desviante” que insiste nessa paciência da filosofia, um conceito emprestado tanto a Hegel (“a paciência do conceito”) como a Lyotard. Justamente porque o pensamento filosófico não se esgota na comprovação de sua “utilidade”, mas tateia para também pensar aquilo que ainda não foi pensado, que espera por ser reconhecido e conhecido, por ser nomeado, ele não pode- nem deve, me parece – obedecer a essa pressão sem criticá-la. Se tiver que obedecer, quando um jovem colega presta concurso, por exemplo, que o faça para “salvar sua pele”, mas não confunda essa atitude com atitude científica! Falo da filosofia, mas imagino que literatura e outras disciplinas ditas de “ciências humanas” também poderiam concordar com essa crítica. E também das ciências ditas “hard”.

Há alguns anos, o psicanalista Renato Mezan publicou um artigo na Folha de São Paulo, intitulado “O fetiche da quantidade”1, no qual conta como, em 1994, um professor de Princeton, Andrew Wiles, conseguiu, mais de três séculos depois de sua formulação, demonstrar um teorema de um matemático francês, o “théorème de Fermat”, cuja demonstração tinha ficado perdida. A universidade de Princeton ofereceu ao pesquisador tanto tempo quanto precisava para se consagrar exclusivamente a esta pesquisa. Ele encontrou a solução depois de sete anos… Sem artigo nem relatório intermediários, portanto!

Será que não é mais possível escrever um belo livro (vamos dizer em seis ou sete anos) porque deve-se redigir três artigos por ano ou mesmo por semestre? E que não se possa “perder tempo” com uma classe até os alunos todos despertarem e começar a pensar por si mesmos? Não é preciso saber de filosofia ou de literatura para saber o quanto a errância e a “perda” de tempo são imprescindíveis para inventividade no pensar.

A senhora faz uma crítica dura a Agamben, na nota da página 55. Fala que a aproximação entre a noção de “mera vida” e “vida nua” pode ter sido apressada. Essa relação é angular no principal projeto de Agamben, que é o seu “Homo sacer”. Essa oposição já foi discutida anteriormente? A senhora gostaria de se estender um pouco mais sobre essa crítica?

Queira desculpar, mas acho minha crítica uma observação filológica bem educada, nenhuma crítica tão dura assim. E completo dizendo que aprecio muito o pensamento de Giorgio Agamben, em particular toda discussão sobre poder e exclusão no Homo sacer. Agora, Agamben cita muitas fontes, de Heidegger a Benjamin passando por Carl Schmitt ou Foucault, sem falar em sua erudição teológica e filosófica mais ampla. Então, muitas vezes, alguns conceitos devem ser retificados, o que tento fazer ao distinguir o conceito de “mera vida” em Benjamin (“blosses Leben”) do contexto da bio-política. Aqui no Brasil, pouca gente ousa simplesmente questionar os textos de Agamben. Ele mereceria uma leitura mais crítica. Por exemplo, na Alemanha, Sigrid Weigel (no livroDie Kreatur, das Heilige, die Bilder, Fischer Verlag, 2008) ou na França Georges Didi-Huberman (no livro Survivance des lucioles, Editions de Minuit, 2009) têm críticas muito mais virulentas!

A centralidade da escrita no pensamento filosófico é um dos temas que atravessa vários textos, e mais centralmente “Do conceito de Darstellung em Walter Benjamin (ou verdade e beleza)”. Essa perspectiva coloca o pensamento filosófico muito próximo da poesia, como também aproxima a poesia da filosofia. Isso parece soar muito intimidador para quem está começando a escrever, ou tem um projeto de uma tese acadêmica pela frente, não é? Gostaria de falar da sua experiência pessoal com a escrita?
Mais uma questão que se desdobra em muitas! As relações entre poesia ou literatura e filosofia são estreitas e complicadas desde de início, desde que Platão nomeia um outro gênero de logos, de discurso, de “filosofia’ em oposição às outras práticas discursivas de sua época, como a poesia de Homero e a retórica. Essa oposição é difícil porque pressupõe uma força argumentativa e lógica que consiga convencer pelo reconhecimento da verdade, em oposição à força da beleza poética e retórica. Ao mesmo tempo, Platão por assim dizer inventa um novo gênero literário, o diálogo, mesmo que seja um diálogo filosófico, ele também lança mão da beleza literária e de histórias míticas para convencer seu interlocutor, no caminho comum da busca do conhecimento. Mesma ambiguidade em relação à escrita: se ele parece condená-la (na “Carta VII” e no fim do Fedro), ele no entanto é um dos maiores escritores que já existiu e nos deixou uma obra escrita – os Diálogos, justamente – maravilhosa.

Acho que é um preconceito filosófico comum pensar que a filosofia não trabalha com estilo ou gênero literário, mas que seria um discurso transparente que “diz a verdade”. Há vários gêneros literários na filosofia, inconfundíveis entre si, e sempre ligados àquilo que tentam dizer: diálogo, tratado, ensaio, meditação, discurso metodológico, sistema…

Não são somente os escritores (literários) que dão importância à sua escrita no sentido de um cuidado com palavras, metáforas, música ou ritmo do texto. Vejam como escrevem um Sérgio Buarque de Holanda ou um Gilberto Freyre, o “estilo” não é nunca indiferente, nem a apresentação dos problemas neutra. Justamente porque nossa linguagem – e mais ainda nossa escrita – é limitada, simplesmente porque nunca consegue realmente “dizer o real”, devemos cuidar dela cada vez mais, explorar seus recursos e seus limites.

Não acho isso intimidante, pelo contrário: tira dos ombros dos pesquisadores a fantasia de ter que alcançar o único verdadeiro através das suas palavras. A limitação da linguagem e da escrita obriga a inventar cada vez mais palavras, mais figuras, mais argumentos, mais textos para dizer melhor. Se tivéssemos uma linguagem perfeita, não precisaríamos mais nem falar nem escrever!

Tive na minha infância um aprendizado das palavras e da escrita (com meu pai, acho, nem consigo lembrar) que desde do início era ligado à beleza (da poesia) e à comunicação. Tive sorte porque nunca percebi na escrita esse instrumento de disciplina e de opressão que um aprendizado mais tradicional pode significar. Leitura e livros foram momentos de descoberta da amplitude do mundo. Então, sempre gostei de escrever, acho que muitos gostariam muito mais de escrever se houvesse esse aprendizado da linguagem, da escrita, da leitura como um aprendizado da múltipla beleza do mundo e de sua possível tradução em palavras.

A senhora acompanha a produção do pesquisador Jonathan Crary? Em seu Suspensões da percepção: atenção, espetáculo e cultura(2013) ele observa, em oposição a Benjamin, que a distração moderna não seria uma ruptura com “tipos estáveis e naturais de percepção contínua” (p. 74), mas um efeito da tentativa de produzir estados não distraídos em sujeitos. Ainda que Benjamin tenha sugerido que “disrupção inerente ao choque e à distração traz a possibilidade de novos modos de percepção” ( p. 74), o mesmo Benjamin, segundo Crary, “sempre pressupunha uma dualidade fundamental, em que a contemplação absorta, purificada dos estímulos excessivos da modernidade, era o outro termo”. (p. 74) Para Crary distração e concentração não se estabelecem como polos opostos, mas como um continuum “no qual as duas fluem incessantemente de uma para outra, como parte de um campo social em que os mesmos imperativos e forças incitam ambas”.
Penso que na página 110 de Limiar, aura e rememoraçãoa senhora atinge Crary em cheio ao afirmar que o impulso lúdico e mimético não seria definido como uma falta de atenção, mas sim como outro desempenho da atenção. A senhora concorda com essa leitura?
Caro Paulo, concordo, sim, com sua leitura…, mas lhe confesso que não conheço Jonathan Crary, nunca li nenhuma linha dele. Portanto, agradeço muito pela indicação, mas não posso responder mais a respeito!

Quando se deu seu primeiro contato com Benjamin? Gostaria de falar sobre essas primeiras leituras? Quais as passagens de Benjamin continuam hoje enigmáticas e centrais para a senhora?
O primeiro texto de W. Benjamin que li foram as teses “Sobre o conceito de história”, último escrito de Benjamin datado de 1939/1940.. Isso foi num curso de alemão medieval, em Genebra, nos anos 1970. Benjamin foi redescoberto pela esquerda, em particular pelo movimento estudantil, nestes anos justamente porque ele era um pensador ligado a Marx, mas não dogmático, nunca foi do Partido Comunista, já tinha percebido os problemas do stalinismo quando foi a Moscou visitar sua amiga Asja Lacis. Ele tinha uma concepção “materialista” (como ele dizia) da história, mas ele questionou profundamente a crença dogmática no progresso, tão importante e tão paralisante (segundo ele) na social-democracia e nos partidos comunistas ortodoxos. A vitória do nazismo exigia outra reflexão que essa “fé” cega no progresso, essa visão determinista da história.

No rastro do movimento estudantil e das críticas crescentes aos partidos comunistas oficiais (em particular depois do sufoco da “primavera tcheca” em agosto de 1968 pelas tropas da União Soviética), um pensador como Benjamin ajudava (e ainda ajuda!) a pensar história e historiografia em oposição à historiografia “dominante’, isto é, dos dominadores, sem, no entanto, cair num falso otimismo progressista.

O professor de língua e literatura alemã medieval, Karl Bertau, estava escrevendo uma obra de historiografia da Idade Média, justamente. Lemos muitos teóricos de esquerda, principalmente Walter Benjamin, nos perguntando sobre essa atividade: como o historiador do presente escreve e reescreve a história do passado? Em vista de que futuro? Com que tipo de lembrança? Qual é a memória, qual é a transmissão que sustenta sua escrita? Questões candentes até hoje e que são também altamente políticas – como percebemos, por exemplo, com o relatório da Comissão Nacional da Verdade e a discussão desse documento.

Continuo achando as “teses” um texto fantástico, mas difícil. Participei do Benjamin-Handbuch (Metzler Verlag, 2006)com um ensaio sobre as “teses”, a convite de colegas alemães, mas não sei se compreendi realmente esse texto fulgurante e obscuro, que, aliás, Benjamin nunca pensou em publicar tal qual, era muito mais um esboço que escreveu para si mesmo, no limiar da Segunda Guerra, antes de desistir de viver. Também outros textos, como A origem do drama barroco alemão, também continuam um “pedreira” para mim, apesar de várias leituras.

Esse meu último livro é uma tentativa de esclarecimento e de questionamento depois de vários anos de estudo e ensino. Ele também significa para mim uma homenagem a todos que, aqui no Brasil, tentam lembrar o passado, cuidar da memória dos mortos e desaparecidos, e afirmar que a história pode ser outra. 

http://www.suplementopernambuco.com.br/index.php/component/content/article/8-entrevista/1350-walter-benjamin-nao-pode-ser-mais-um-fetiche-cultural.html

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Conferência do Prof. Paulo Arantes, local

A conferência com o Prof. Paulo Arantes, “Política e Universidade”, ocorrerá no Museu da Cultura da PUC-SP, no subsolo do Prédio-Sede da PUC-SP (“prédio velho”), Rua Monte Alegre, 984, Perdizes – São Paulo, SP. Acesso pelo corredor S-23, em frente ao Pátio da Cruz. 

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Atividades de recepção aos calouros do curso de Filosofia – Aulas abertas

Terça-feira, às 19h30. Aula aberta com Prof.a Dra. Maria Lúcia Cacciola (USP). Tema: A filosofia universitária – Schopenhauer. Auditório 100A. Campus Monte Alegre.  Quarta-feira, às 19h30. Aula aberta com o Prof. Dr. Paulo Arantes (USP). Tema: Política e Universidade. Auditório 100, campus Monte Alegre.  Quinta-feira, às 19h30. Aula aberta com o Prof. Dr. Celso Favaretto  (USP). Tema: Ensino de Filosofia. Auditório 100. Campus Monte Alegre. 

Sexta-feira, às 19h30. Aula aberta com a Prof.a Dra Maria das Graças Souza (USP). Tema: A filosofia Militante. auditório 100. Campus Monte Alegre.

Organização: Cafil

Apoio: Coordenação do Curso de Filosofia da PUC-SP

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Política e universidade, com Paulo Arantes.

Palestra com o prof. Paulo Arantes.

Quarta-feira, 11/2/15, às 19h30, Museu da Cultura, em frente ao Pátio da Cruz, campus Monte Alegre, PUC-SP.  

Tema: POLÍTICA E UNIVERSIDADE.

Organização: CAFIL–Centro Acadêmico Filosofia – PUC-SP 

Apoio: Coordenação do Curso de Filosofia da PUC-SP 

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